sábado, 1 de abril de 2017

Como ler e entender as Escrituras? Parte I




Por Edvaldo Beranger


Quer queiramos ou não sempre estamos a interpretar. Essa é uma tarefa que aprendemos desde que nascemos. Interpretar para muitos parece ser uma tarefa fácil e desprovida de ciência, mas se olharmos com atenção perceberemos que determinados fatos são fáceis de interpretar, outros não.

Ao olharmos para a Igreja de hoje percebo que muitas pessoas se aproximam das Escrituras do Velho e Novo Testamento sem relevar seu conteúdo, seu gênero literário e ainda a sua distância histórica.

A Bíblia é um livro sem igual, suas raízes não podem ser comparadas com nenhum livro comum, ( II Tm 3:16) ao mesmo tempo cremos que é próprio do ser humano a crítica quando ela parte de pressupostos importantes e saudáveis, não de especulações e hipóteses sem valor histórico. Embora seja um livro escrito por homens (e não foi Deus quem a escreveu), contudo, o Senhor falou através de homens santos e os capacitou pelo Espírito Santo a colocar o conteúdo precioso que ora temos em mãos.

Reconheço por certo que a interpretação da Escritura parte de um pressuposto de dependência da ação do Espírito em nós. Não se trata de mágica e nem misticismo cristão, mas da iluminação interna para a compreensão. E aqui temos a primeira lição hermenêutica sobre a Escritura:

1. Ler a Escritura é um ato de dependência do Espírito de Deus. "lâmpada para os meus pés é a tua Palavra e luz para os meus caminhos" Sl 119:105. Como necessitamos aprender a ler. Ler é uma arte que deve gerar em nós algumas atitudes, isto chamamos de processo hermenêutico:

a) Comprender abordagens históricas. Se estivermos lendo qualquer texto devemos associar a questão histórica para compreendermos o porque foi dito ou pronunciado aquela frase.
A associação histórica é fundamental para não usarmos a Bíblia de forma incorreta. Faça perguntas ao texto: Porque o autor disse isso? Qual a razão do profeta ter usado esta frase? O que estava acontecendo imediatamente neste contexto?

b) Compreender o tipo de gênero literário. Este estágio de leitura requer um conhecimento prévio. Pois ninguém pode ler os profetas sem levar em consideração que é um gênero de literatura distinto. Geralmente os profetas usavam 3 tipos de pregação: exortação a sair do pecado senão o Senhor haveria de puní-los no futuro, mas se houvesse um arrependimento, Deus abençoaria, (Ex. Os 14 ); depois a profecia tinha uma forma de consolo, isto é, Deus sempre através dos profetas dizia que o pacto de Deus com o seu povo continuava por causa da misericórdia de Deus (Is 58, etc...). Há um gênero dentro da profecia que é distinto de todos outros, (não falaremos agora) é o gênero apocalíptico.

No N.T. a profecia assume uma terceira categoria (I Co 14:3) que é a edificação ela é própria para o ensino didático e litúrgico, pois o profeta instrui a igreja , exorta-a e a consola. Por isso é fundamental saber o gênero ou o tipo de livro que estamos lendo para a nossa interpretação.

c) Procure o ponto principal da mensagem, cuidado para não se perder com os detalhes. Muitos interpretam errado determinadas passagens por que se perdem em detalhes que são importantes dentro do assunto principal. Por exemplo: a árvore que Zaqueu subiu não é mais do que o fato de Jesus ter salvo a sua vida. Há pregadores que enfatizam o que o texto não enfatiza. Cuidado, isto pode ser fatal para a interpretação. Pergunte sobre o bloco de texto que você lê: qual é a razão ou a mensagem deste texto?

Espero que estes pequenos lampejos possam ajudá-lo a encontrar na Palavra de Deus a orientação interpretativa que você necessita. Esta é apenas uma parte desta importante tarefa de compreender a Escritura.


Rm 15:4-5 Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. 5 Ora, o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus.

Rev. Edvaldo Beranger (Mestre em Artes e Religião e Doutorando em Ministérios D. Min.)

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terça-feira, 24 de maio de 2011

Como fazer perguntas certas para a interpretação?

Quando falamos de interpretação, isto pode parecer extranho, mas tecnicamente a interpretação ou a hermenêutica, (forma técnica) está presente em tudo o que fazemos ou pensamos. Constantemente observamos que a Bíblia as vezes é usada de forma inadequada, tal como uma caixinha de promessa que não leva em conta o contexto, os dados históricos e a intenção do autor, ela serve para tudo.
Nesta idéia gostaria de desnvolver um tema relativamente complicado sobre a interpretação. Fazer perguntas ao texto é uma arte que precisa ser desenvolvida. Gostaria de lhes expor como eu estabeleço algumas perguntas para a exegese. Primeiro precisamos estabelecer alguns pressupostos antes de começarmos as perguntas. É preciso estabelecer o texto, ou seja é necessário verificar se a unidade a ser pensada faz parte de um texto maior ou se é um texto independente. Um exemplo disto são os salmos que são unidades independentes dos capítulos no próprio livro dos Salmos e não requerem o contexto, embora não exista texto sem contexto. Pode-se ver que há três pré-requisitos para começar as perguntas para ajudar na interpretação.
Primeiro, deve-se compreender qual é o o gênero literário maior. Por exemplo: um livro como Naum, temos um livro profético que essencialmente é profecia dentro de um contexto no V.T. Outro exemplo, seria o livro de Atos em que narra a vida da Igreja e alguns episódeos da vida de Pedro e de Paulo. Que gênero literário maior é este? Ao definir isto, quais as características que são próprias desse gênero e estilo literário? Ainda como exemplo, sabemos que os profetas tem narrativas, sapiência e profecias e isto nos leva a segunda compreensão:
Segundo deve-se compreender qual é o gênero literário menor dentro do livro. O gênero literário menor é uma parte complexa na interpretação. Há um livro muito interessante que ainda não está traduzido para o português chamado: "Literary forms in the new Testament" (Bailey and Brook, 1992), (Formas literárias no Novo Testamento) que explora todos ou quase todos os gêneros maiores e menores neste sentido que expomos aqui. A busca do gênero menor é mais complexa que a anterior. Definindo este gênero, quais as figuras de linguagem estão sendo empregadas? Vamos a um exemplo: a perícope de Mateus 5:1-11 - texto definido e chamado como "as bem-aventuranças"; temos neste texto uma narrativa, v.1-2 e do v.3 até o v.11 temos um paralelismo em degraus que é paralelismo sintético. Neste aspecto percebemos que há uma constatação afirmativa e o "porque" explicando essa afirmação; Ex: Bem-aventurados os que choram, porque [eles] serão consolados. Nem sempre é fácil definir o gênero menor. Nos livros do Apóstolo Paulo há uma argumentação envolvida com formas literárias do V.T. e formas retóricas de argumentação, (especialmente em Romanos).
Em terceiro lugar, é necessário delimitar a perícope para levantar as perguntas certas. Quais são os conectores (conjunções subordinadas, coordenadas), que demonstram que o texto é uma unidade independente para se formular uma tese?
Depois de analisar estas três questões, agora podemos levantar algumas perguntas, claro que com a devida limitação, por que cada texto tem as suas próprias perguntas e suas questões íntimas. Há três questões básicas para a interpretação que vale para qualquer texto, depois de avaliados os ítens acima:
1) Qual a intenção do autor neste texto? Essa pergunta levanta o ponto mais importante na interpretação por que respeita o texto e o seu autor. Junto a ela está a intenção maior do gênero literário. Além do mais, o autor do texto da Escritura é o espírito de Deus, porque cremos que a Bíblia é a em última e primeira instância a Palavra de Deus.
2) Qual é o propósito da perícope? Delimitando a perícope deve-se perguntar qual a razão dela em si. Qual é o propósito dela no contexto do livro. De acordo com o gênero menor, qual é o propósito dessa perícope? Neste sentido é muito importante o exegeta e o estudioso compreender a importância de se compreender a amplitude do texto. Lembre-se, nenhum texto pode significar algo que nunca foi a sua intenção original. Cabe aqui, lembrar que a interpretação do texto se dá por argumentação e deve-se perceber a dificuldade desta tarefa. mas isto não é desanimador e sim um estímulo para descobrir e buscar a Palavra de Deus que foi falada a tantos anos atrás, mas que é a mesma que nos impulsiona a vivermos pela fé e pela graça. Ainda que tenhamos textos difíceis, há uma clareza nas Escrituras que podemos entendê-la.
3) A terceira pergunta é: Quais as proposições diretas ou indiretas do texto da perícope? Há uma corrente que não admite a Bíblia como um livro proposicional, ou seja, não aceita que a Bíblia determine coisa alguma. Essa corrente vem da filosofia relativista, do pluralismo e da teologia liberal. Mas para nós a Bíblia é propositiva, isto é, há várias proposições que impõe uma obediência - os puritanos diziam que ela é a única regra de fé e prática.
Confesso que no começo dos meus estudos eu também não gostava da palavra regra, por causa de falar de algo que assusta os que não são cristãos, mais uma vez eu confesso, eu estava errado. Se os não cristãos não aceitam a Bíblia como Palavra de Deus, é uma pena, mas a Bíblia é a Palavra eterna de Deus e não pode se adequar ao gosto dos não cristãos.
Da mesma forma os cristãos não devem adequar conteúdos para agradar os outros, sim, não faça como eu.
As vezes a passagem (perícope) não traz proposições diretas para nós. Deve-se estabelecer o que o texto implicitamente nos diz. Estabeleça quais os pressupostos do texto que servem para nós.
Creio que essas perguntas ajudaram a estabelecer otras perguntas e ajudar você na sua interpretação. Um forte abraço em Cristo!
Pr. Ede

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